Tuesday, January 24, 2012

Duas vezes para a esquerda

Vou tentar esquecer do momento em que meus pensamentos ficaram distantes, no meio tempo entre o estalar da chave na porta, rodando duas vezes para a esquerda e me deixando de frente com toda aquela imensidão sólida, tão branca.

Vou tentar entender o motivo daquela confusão toda no apartamento, as gavetas reviradas, malas prontas. O pé a bater descompassadamente no chão. Você a baforar tanta fumaça do seu cigarro. Como se o mundo aqui dentro já não fosse o bastante para seus olhos dilatados de tanto rancor.

Vou tentar esquecer que tenho que acordar cedo amanhã, porque o barulho da porta – a chave girando violentamente duas vezes para a esquerda – não me deixa pregar os olhos, e eu fico aqui nessa cama te cheirando, sentindo seus dedos entrando em mim devagar para depois algumas palavras no pé do ouvido. E todas aquelas horas te sentindo dentro de mim. Meu homem. Sua mulher.

Vou tentar esquecer os benefícios do meu sexo, e me entregar como uma fêmea fraca, sem abrigo ou qualquer vontade de viver. Vou esquecer intencionalmente que eu tenho de acordar cedo e não mais fazer o seu café preto, bem forte e sem açúcar. Do jeito que você me ensinou.

Vou esquecer a falta repentina de luz ou de água, porque a mesinha da sala está tão cheia de papeis, mas eu não faço ideia de qual é a conta que eu tenho de pagar. Aliás, eu sei, mas se começar a lembrar eu vou pensar em você me acariciando forte no corredor da casa, apertando-me em teu corpo e me fazendo estremecer. Meu homem. Sua mulher.

Meu homem e não mais meu, se entregando a essas mulheres fáceis – dez reais num boquete mal feito – duas doses de whisky nacional. Vou tentar esquecer desse maldito barulho, porque toda vez que eu choro a minha pele arde e me perco em um turbilhão de emoções, vocêeu/noquarto/nacama/nocorredor/nobanho.












É bem difícil esquecer.

Friday, December 23, 2011

Adotando clichês/Me entrego fácil

Eu lembro daquele vinte e quatro de dezembro, todo mundo te esperando e você chegando atrasada por estar em outro lugar. Um lugar secreto, que ninguém sabia onde era. Com quem era. Eu me lembro de estar perto da janela, o telefone por perto, esperando alguma explicação. Eu lembro que as luzes do enfeite se misturavam com a fumaça do cachimbo. Cachimbo aquele que era do meu avô, talhado com as iniciais do nome dele.

Você chegou me puxando o braço, beijando a minha boca vorazmente. Como se fosse um pedido de desculpas. Eu estava furioso e você linda. Vestido preto, saltos um pouco altos, maquiagem impecável. Não tinha como estar furioso naquela noite, naquela hora. Desculpas aceitas.

Eu lembro daquele vinte e cinco de dezembro, os convidados bêbados vendo especiais das emissoras de televisão. Alguns ensaiavam lágrimas, outros brindavam a todo momento. Copos cheios de vinho, corações vazios de amor.

Eu não tinha me esquecido do seu atraso, então te puxei para um canto, ali no corredor da cozinha. Olhei nos teus olhos e num minuto de desconfiança parecia que não queria mais você naquela casa, e iria além, dizendo que podia levar junto todos os convidados e suas lágrimas falsas. Eu lembro de você me perguntando o que tinha acontecido e meu pensamento lá longe, em todas essas palavras que iria te falar.

Ouvi o meu nome por quatro vezes seguidas. Tirei do bolso uma peça brilhante, pra logo em seguida deixá-la repousando em seu dedo anelar. Ouvi outras palavras por mais vezes, mas não sabia o que significavam. Eu queria guardar aquele momento pra sempre.









Eu me lembro daquele vinte e cinco de dezembro...

Sunday, November 06, 2011

Depois da meia noite

Eu me lembro do momento exato em que costumava chegar em casa aos domingos. Tempos atrás eu chegaria bêbado, naquela hora do último filme e ligaria a televisão no mudo enquanto alguma música repetiria de forma duradoura nos meus ouvidos.

Eu me lembro também de como odiaria o dia seguinte, enquanto ia para o trabalho naqueles vagões cheios de gente feia dividindo espaço comigo e com crianças e bicicletas. Eu me lembro também dos poucos sorrisos e dos alguns cigarros que eram consumidos lá embaixo.

Eu consigo desenhar e traçar na mente o momento exato da noite em que faria a minha pressão baixar propositalmente, para poder dormir tranquilo e ter os sonhos mais inesquecíveis do mundo. E lembro de uma voz dizendo para não misturar nada com álcool, porque faz mal e eu posso me viciar. Mas eu não ligava e apenas respondia que não desejava uma morte assim tão rock n roll superstar.

Eu me lembro de estar lendo um livro sobre dragões e ver você entrando na minha casa, invadindo meu espaço com todo aquele choro descontrolado e eu dizendo que não queria ser incomodado. Mas você insistia e eu tinha que ficar te dando colo. E toda minha leitura era prejudicada.












Eu lembro de você dando todo esse trabalho.

Wednesday, November 02, 2011

Pistache

Eu já não tenho mais sobre o que escrever. É mentira. Estou mentindo, porque na verdade eu tenho muito sobre o que escrever. Sobre todos aqueles dias de tantos meses, mas eles não caberiam aqui nessas linhas sedentas por histórias.

Eu falhei. E te peguei assim de surpresa. E eu juro que não foi por querer. Mas eu sentia coisas que não sabia explicar. E me mande notícias. Sabe aquele gosto tão forte que descobrimos na porta do supermercado? Eu sei, era de pistache.

E vamos os dois saber nada um do outro. Como naquela música que só eu ouço e todos odeiam. E continuo insistindo: me mande notícias, mesmo que ruins. A gente não sabe e não vai saber. Até um tempo passar.

Como se fosse muito fácil pra mim desistir de tudo. Eu sei, foi de surpresa. Eu sei, eu sei. Mas eu lembro daquela conversa e você meio assim, raivosa. E eu sei, a culpa foi minha. Eu falhei. Eu te perdi. Mas aquela essência do supermercado vai ficar. Um pedaço de pistache. E muita saudade.

Hoje eu fui ao bar. E amanhã também. Queimar os ossos na chuva dos mortos. Porque sempre chove no dia de finados. E depois desse feriado, daqui sete dias é meu aniversário. E eu vou sentir aquele cheiro da porta do supermercado e vou procurar por alguém já ausente. Me desculpa por todo o sofrimento.








Eu sempre gostei de pistache.

Wednesday, October 26, 2011

Quando falta um sentido

Me convidam a te decifrar; teus olhos, os raios. A chuva e a noite me convidam a esperar alguma próxima armadilha. Estou preso em teus braços. Estou caindo em desatino. Não passo mais de uma alma desesperada.

Me convidam à embriaguez, me chamam lá ao longe. E talvez eu esteja até perdendo a minha identidade nesses escritos encruzilhados, neste emaranhado de palavras sem sentido. É que me convidam a tantos outros que nem sei bem em que rumo estou.

Te convido a passar um verão com as minhas ideias. Te convido a beber das minhas lembranças até que elas te deixem bêbada e com aquela imensa vontade de chorar. Lembranças de praias, de carros, de beijos, de mortes. Lembranças de um sobrado.

Me convido ao grande encontro do passado com o presente, à inércia nada atraente dos corpos, a facilidade de conseguir qualquer substância ilícita na rua, ao cheiro da gasolina. Me chamam agora mais perto, seus olhos marejados daquela tarde de domingo. Me chamam agora o telefonema do amigo distante, as ruas cheias de árvores, todas aquelas pranchas. Me chamam agora o rio, o janeiro, a eternidade.
















Mas tudo isso não passa apenas de mais uma lembrança.

Friday, October 14, 2011

O peso dos seus ombros

Ninguém interessante para conversar, nada além de ouvidos preenchidos por barulhos cadenciados, carregados com sincera melancolia. Nada além de fumaça e neblina em uma noite tão escura e fria. Choveu desde o cair da tarde, quando o dia se fez noite e todos foram para debaixo de seus guarda chuvas.

Ninguém disposto a te escutar, mesmo que lendo suas palavras. E elas parecem sair de um jeito tão sofrido. E só você sabe como foi duro o dia. Só você conhece o tamanho da angústia que carrega nos ombros. E eles vivem te julgando, fazendo pré-conceitos tendo como base o estilo de vida que você leva.

Todos estão juntos em algum lugar e não sobrou nenhum exemplar da raça para te dar atenção. Agora o cinzeiro se enche de filtros brancos - os amarelos já estavam forte demais - e você se esvazia em frente à tela, com os fones de ouvido fingindo ouvir seus pensamentos.

Todos estão bem longe daqui, fazendo algo mais divertido, vivendo sem pesos nos ombros, sem dores no ouvido. Todos estão fingindo ser felizes, mostrando os dentes para algum desconhecido, trocando telefones com a menina da mesa ao lado, fingindo ser um cara divertido .

Estão todos tão ocupados nas suas mentiras e talvez seja melhor não ter ninguém aqui agora para me escutar, mesmo tendo sido o dia tão esquisito - e os cigarros estão acabando, a sobriedade te apavora de uma maneira especial e seu impulso é sair pela rua atrás de alguma coisa que quebre a rotina, mas estão todos muito ocupados vivendo as suas mentiras - e a essa altura talvez o silêncio seja a coisa mais maravilhosa do seu dia.









Eles não sabem nada sobre a sua vida.

Thursday, September 15, 2011

Parque Memorial

Os verbos antes eram no presente e agora são todos no passado. Ficam as boas ações, os dias bem vividos e também aqueles que podíamos ter aproveitado melhor. Fica a dúvida, a incerteza se eu tivesse feito aquilo naquele dia, naquela hora, talvez você tivesse gostado.

Fica um incerto, se hoje em dia estamos tão bem quanto no passado. E olha, parece até que não faz tanto tempo assim - eu e você deitados naquele gramado - no dia que nos conhecemos. Desculpa se não te fiz tão feliz assim. É que talvez eu estivesse ocupado.

É sempre assim...os verbos começam a ser conjugados no presente e terminam sempre no passado. E só quem sabe o que é dormir em um sofá azul, uma mão meio roxa e várias flores ao seu lado e também aquele quarto desocupado. A cama velha tão grande, a televisão sem estar sintonizada. Só quem sabe o que é não estar satisfeito, porque você não tem se esforçado (eles dizem isso).

E o maior medo é ser sincero e acabar sendo mal interpretado. Porque a sexta não foi o bastante e o amor nunca andou ao seu lado. Mas só você sabe o que é acordar às sete horas da manhã e ser cobrado pelo o que ainda não conseguiu alcançar.







Eu nunca vou viver até os oitenta e quatro.